RSS
 

Hamílton de Holanda e André Mehmari em Di Menor

25 set

Se a geração de compositores brasileiros não empolga, a de instrumentistas tem gênios como Hamílton de Holanda e André Mehmari. Ainda bem.

Aqui, eles fazem Di Menor, de Guinga, e Hamílton fala sobre a obra do compositor.

 
 

Egberto 10 Cordas

24 set

 
 

Viveremos no mundo “esclarecido”?

24 set

A sociedade do século XXI começa, já na segunda década, a dar sinais de que, no mundo do acesso rápido e fácil à informação, os absurdos humanos terão cada vez menos espaço, em especial os praticados pelo Estado contra a população em geral. É o que vemos na Primavera Árabe, quando, apoiados em redes sociaise no velho boca a boca, os populares africanos explorados pelas grandes potências, na figura de ditadores ególatras e sanguinários, perceberam o absurdo de viver numa nação governada por um completo imbecil narcisista e mimado, mais disposto em explorar a população e as riquezas produzidas pela mesma do que gerir uma nação.
As redes sociais, e o caráter apartidário e livre da rede mundial de computadores, são o pontapé inicial para que se formem sociedades “esclarecidas”, pra utilizar um termo corrente nas descrições dos nossos conflitos contemporâneos, e as pessoas se organizem. É nessa sociedade que o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, se equilibra entre as necessidades óbvias do país, como a diminuição da pobreza, desemprego e estabilização econômica, e o cego capitalismo conservador norte-americano, aquele que taxa o combate à pobreza e o aumento de gastos públicos de comunismo. Obama, inábil na política interna, não porá em prática seus planos de igualdade social na sociedade norte-americana. Ele sabe disso. Por isso, já é possível colar na testa do presidente norte-americano um adesivo não muito diferente de seu antecessor, o patético George W. Bush: conservador. E o resultado é a baixa popularidade do presidente.
O Estado norte-americano orgulha-se, com razão – e é daí que vem o sentimento de sociedade e de patriotismo tão fortes nos EUA – da formação do país, quando baseado na igualdade de condições formaram a mais sólida e forte sociedade do mundo contemporâneo. E fez parecer que expandiu sua força de maneira aparentemente diferente dos coloniadores europeus, mas não: explorou os países latino-americanos, apoiou ditaduras, fez conchavos expúrios em nome do regime capitalista, financiou torturas, sequestros e mortes de civis, e assinou contratos pouco vantajosos para os países da região para manter seu controle. Como toda grande potência da história humana.
Mas é nesse mundo “esclarecido” que Obama, por exemplo, vê sua reeleição sob risco. Ele pode ser o primeiro presidente norte-americano desde George Bush, o pai, no início da década de 1990, a não se reeleger. Por conta do conservadorismo de suas ações, e porque provou não ter a força necessária para enfrentar a grande crise econômica, que ameaça de uma só vez quebrar os Estados Unidos e a Europa.
Mas a maior conta a ser paga no século XXI, e pelos EUA em especial, pode ser a conta de Israel. A criação de Israel, um Estado semita, primeiro pela ONU e depois numa guerra ridícula de seis dias em que a força norte-americana massacrou o poderio militar dos países que então formavam Oriente Médio, foi um “pedido de desculpas da humanidade” ao povo judeu, que foi massacrado por Hitler na Segunda Grande Guerra. Um Estado Árabe, que os próprios árabes não aprovaram, baseado na desculpa de que aquela era uma terra que pertencia também ao povo judeu, que até então não existia. Até a década de 1940, o judaísmo era uma religião, a maior vítima da Grande Guerra que terminaria em 1945. Até então, o Oriente Médio viu passar por ali todas as civilizações modernas, foi controlado pelas maiores potências da história, até chegar à criação forçada de Israel, a Terra Prometida do povo Hebreu, que ocupou a região até X a.c.. Uma revolução à canetada. Para uma região estratégica, rodeada pelos maiores pólos de petróleo do mundo.
Porém, depois da ocupação, que previa Jerusalém como uma cidade controlada pelas Nações Unidas, unindo as religiões que visitavam locais sagrados na cidade, Israel não apenas decidiu aumentar suas fronteiras e se expandir, com apoio norte-americano, como iniciou na Palestina um massacre que já dura 64 anos. Egito, Síria, Paquistão, Líbano, todos já entraram em conflito com o Estado Israelita, que sempre alega ter sido atacado primeiro. Parece boletim de ocorrência da ROTA em São Paulo. E, com o tempo, Israel criou, do outro lado do muro, uma população pobre, desnutrida, sem possibilidades de se defender e sem um Estado a recorrer. Hoje, a geração dos homens-bomba é filha das atrocidades cometidas por homens como Ariel Sharon, ex-primeiro ministro e militar que há anos permanece prostrado devido ao AVC, e que na década de 1980 ordenou o massacre de mais de 100.000 palestinos de uma só vez. Não me é estranho o aparecimento de pessoas capazes de acabar com a própria vida, e de outras, simplesmente porque não há saídas no horizonte para o impasse. Essa geração, como a dos jovens que domina os morros no Rio de Janeiro ou que mantém-se em guerra civil na África, é uma consequência. O ser humano é a vítima, dos dois lados do muro.
Israel, como é hoje, e a defesa do Estado na região se tornarão, cada vez mais, um fardo enorme para este mundo. Porque a Primavera Árabe se desenvolve nas regiões em volta de Israel, no norte da África e no leste do Oriente Médio. E o apoio norte-americano na região, até pelo histórico negativo, míngua a cada ano.
Fato é que Israel, hoje, é um erro. Um enorme equívoco histórico e uma injustiça. Enquanto os analistas temem pelos novos governos da Primavera Árabe, a maioria apontando para o caos islâmico e pouca organização, cresce a insatisfação popular em outros países do mundo em outros países. O povo israelita, que já tem em sua maioria da população o grande acesso à informação, ainda sofre com a cabeça vazia e antiga dos militaristas em sua política. Regalos de Ariel Sharon e seus pares. É depois desta briga de gerações, do conservadorismo do século XX e dos “esclarecidos” do século XXI, é que saberemos em qual mundo viveremos daqui pra frente. Uma pena Barack Obama ter ficado no século passado.

 
No Comments

Posted in Textos

 

A boa chance

24 set

Você é um cantor, e tem um sonho: ter a chance de lançar uma música inédita de um consagrado compositor.

Você tem algum contato com: Chico Buarque.

Ele fica sabendo que você quer gravar uma música inédita dele, e manda algumas sugestões.

Você escolhe sua canção, e está feliz com a honraria oferecida pelo compositor.

E grava, do seu jeito, como fizeram Diego Nogueira e Thaís Gullin.

Mas eis que chega a vez de Chico Buarque…

Classe.

 
 

A música latino-americana

24 set

A barreira da língua não é desculpa, mas o público brasileiro não é próximo da música feita nos países vizinhos a esta terra Pau-Brasil.

Alguns podem defender a qualidade do produto nacional, tão inegável, mas é de uma babaquice sem tamanho achar que, se por aqui se faz boa música, no vizinho não se há de fazer.

Pois fez-se e faz-se muito. Há canções belíssimas.

Da compositora chilena Violeta Parra, há Gracias A La Vida, pérola imortal na voz de Mercedes Sosa.

De Leo Massiah, há Biromes y Servilletas, ou Guardanapos de Papel, na versão de Milton Nascimento.

O cantor popular mexicano Luis Miguel, uma espécie de Julio Iglesias moderno, já revisitou os “Romances” latino-americanos muitas vezes. Aqui, ele canta La Puerta, um bolero que já foi citada em Dois Pra Lá, Dois Pra Cá, de João Bosco e Aldir Blanc.

O antigo Trio Los Ases faz o bolero No Me Platiques Más, do auge do gênero.

O cantor romântico Lucho Gatica carrega na emoção enlouquecendo em El Reloj.

E pra terminar, o melhor compositor da nova geração da música latino-americana, o uruguaio Jorge Drexler, na vencedora do Oscar, El Otro Lado Del Río, e revisitando a linda canção uruguaia de Chicho Sánchez Ferlosio, Milonga Del Moro Judio.

 

Chico e Milton

23 set

As parcerias entre os dois são raras, embora Milton tenha sido convidado muitas vezes para cantar composições de Chico Buarque, entre elas a imortal Beatriz.

Mas enfim, os dois têm poucas composições juntos, uma delas é a linda Léo, que aqui Milton, na turnê Tambores de Minas, toca e canta ao piano.

Tem O Cio da Terra.

E Desgarrados do Chão.

Mas, cá entre nos, é difícil superar as participações de Milton nos discos de Chico. Como em Beatriz, dele e de Edu Lobo.

Ou Cálice, de Chico e Gilberto Gil.

 
 

Metá Metá e Trovôa

22 set

Lançado neste ano, Metá Metá reúne a cantora Juçara Marçal, o violonista Kiko Dinucci e o saxofonista/clarinetista Thiago França, com arranjos simples, violão e sopros, mas criatividade e sensibilidade como há muito não se faz por aqui.

E como todo bom disco, Metá Metá tem sua pérola: Trovôa, de Maurício Pereira.

Tive o prazer de ver os três ao vivo recentemente, na Casa de Francisca, e posso dizer: é tudo isso mesmo.

Com vocês, esta obra de arte mais que moderna: Trovôa.

Trovôa
(Maurício Pereira)

Minha cabeça trovoa
sob meu peito te trovo
e me ajoelho
destino canções pros teus olhos vermelhos
flores vermelhas, vênus, bônus
tudo o que me for possível
ou menos
(mais ou menos)
me entrego, ofereço
reverencio a tua beleza
física também
mas não só
não só
graças a Deus você existe
acho que eu teria um troço
se você dissesse que não tem negócio
te ergo com as mãos
sorrio mal
mal sorrio
meus olhos fechados te acossam
fora de órbita
descabelada
diva
súbita…
súbita…
seja meiga, seja objetiva
seja faca na manteiga
pressinto como você chega
ligeira
vasculhando a minha tralha
bagunçando a minha cabeça
metralhando na quinquilharia
que carrego comigo
(clipes, grampos, tônicos):
toda a dureza incrível do meu coração
feita em pedaços…
minha cabeça trovoa
sob teu peito eu encontro
a calmaria e o silêncio
no portão da tua casa no bairro
famílias assistem tevê
(eu não)
às 8 da noite
eu fumo um marlboro na rua como todo mundo e como você
eu sei
quer dizer
eu acho que sei…
eu acho que sei…
vou sossegado e assobio
e é porque eu confio
em teu carinho
mesmo que ele venha num tapa
e caminho a pé pelas ruas da Lapa
(logo cedo, vapor… acredita?)
a fuligem me ofusca
a friagem me cutuca
nascer do sol visto da Vila Ipojuca
o aço fino da navalha me faz a barba
o aço frio do metrô
o halo fino da tua presença
sozinha na padoca em Santa Cecília
no meio da tarde
soluça, quer dizer, relembra
batucando com as unhas coloridas
na borda de um copo de cerveja
resmunga quando vê
que ganha chicletes de troco
lebrando que um dia eu falei
“sabe, você tá tão chique
meio freak, anos 70
fique
fica comigo
se você for embora eu vou virar mendigo
eu não sirvo pra nada
não vou ser teu amigo
fique
fica comigo…”
minha cabeça trovoa
sob teu manto me entrego
ao desafio de te dar um beijo
entender o teu desejo
me atirar pros teus peitos
meu amor é imenso
maior do que penso
é denso
espessa nuvem de incenso de perfume intenso
e o simples ato de cheirar-te
me cheira a arte
me leva a Marte
a qualquer parte
a parte que ativa a química
química…
ignora a mímica
e a educação física
só se abastece de mágica
explode uma garrafa térmica
por sobre as mesas de fórmica
de um salão de cerâmica
onde soem os cânticos
convicção monogâmica
deslocamento atômico
para um instante único
em que o poema mais lírico
se mostre a coisa mais lógica
e se abraçar com força descomunal
até que os braços queiram arrebentar
toda a defesa que hoje possa existir
e por acaso queira nos afastar
esse momento tão pequeno e gentil
e a beleza que ele pode abrigar
querida nunca mais se deixe esquecer
onde nasce e mora todo o amor

Dá pra baixar tudo no site do Kiko Dinucci: www.kikodinucci.com.br

 
 

Passarim

22 set

Em 1987, eu tinha dois anos quando Tom Jobim lançou Passarim, penúltimo disco da sua carreira. Lembro com uma clareza inexplicável do quanto meus pais ouviram o disco, e o quanto cada música passou a significar pra mim com o passar do tempo. A primeira, é claro, é Passarim, música que abre o disco, num arranjo impecável do Maestro Soberano.

No disco:

E com Tom ao piano, com Danilo e Dori Caymmi.

Ao longo do disco, que tinha a versão de Tom pra pérolas como Luíza e Anos Dourados, esta com Chico Buarque, havia ainda outras pérolas escondidas, como Bebel.

Criança, saboreava com prazer o som da frase “Mas é bonita mesmo, é uma beleza: força da natureza”. Era, e é, tão bonito.

Fundador da música brasileira moderna, Tom tinha estilo de sobra.

E, sem Vinícius, se revelou um imenso letrista. Se Luíza é uma pérola,

Gabriela é uma obra-prima.

 
 

Gal, Fatal

22 set

A pedido do leitor e amigo Marco Antonio, o @Cotonho72, finalmente publico Gal Costa, no auge, na turnê Fatal, cantando Baby, de Caetano Veloso.

E prestem atenção no arranjo. Afinal, o que é moderno?

Gal e Caetano sempre foram muito próximos. Gal chamava a atenção pelo olhar penetrante, a interpretação segura, a voz sempre obediente. Era uma das maiores.

Com Tom Zé e o Som Imaginário, revolucionária banda do Clube da Esquina, cantando Erasmo e Roberto Carlos. “Gal Costa é muito maravilhosa”, completa Tom Zé.

Nos anos 1980, Gal gravaria Festa no Interior, música de sucesso de Moraes Moreira e Abel Silva, mas símbolo do exagero da cantora em buscar os tons mais agudos e menos confortáveis – à garganta dela e aos ouvidos alheios (rs).

Mas Gal voltaria bem, embora mais tímida como intérprete, sinal do tempo, anos depois.

Sempre acompanhada de Caetano Veloso.

 
 

Itamar Assumpção

22 set

Conheci Itamar Assumpção através de meu grande amigo Bruno Pucci, infelizmente tarde, uma vez que o genial compositor “maldito” já havia falecido precocemente, deixando um precioso disco com o percussionista Naná Vasconcellos, outro dos gênios desconhecidos da música brasileira popular.

Itamar é o melhor compositor da geração chamada “maldita” da música paulistana, que nos anos 1980 teve a participação de grupos como Premeditando o Breque (hoje Premê), Rumo, e do também importante compositor Arrigo Barnabé, e foi marcada pelo humor urbano e pela produção independente, inaugurada por Clara Crocodilo, de Arrigo.

Criativo do começo ao fim, a grande discografia de Itamar é marcada por letras diretas e arranjos criativos. O primeiro disco, Isca de Polícia, é um marco.

Com Paulo Leminsky, ele descobriu que um homem com uma dor é muito mais elegante.

Itamar e Naná Vasconcellos. Devagar com o andor.

Ele ainda teve fôlego de reinventar Ataúfo Alves.